segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Porque era ele, porque era eu

Porque era ele, porque era eu
 
Bastou para Michel de Montaigne,
numa frase que não é qualquer,
explicar as razões de uma amizade:
Porque era ele, porque era eu.
 
Numa profunda epifania,
regada de canções e poesias,
a mágica acontecia.
 
Quantas madrugadas foram precisas
até o completo frenesi?
Muitas? Nenhuma?
Não sei dizer.
 
Porque era ele, porque era eu.
 
E essa frase tão antiga,
que agora quase me esvazia,
me liberta e me domina.
 
Não havia mais nada.
Havia os dois.
Duas almas.
Dois seres.
Dois corpos.
Duas chamas.
 
Havia um único lugar,
um único desejo:
o desejo de ser e de existir em si mesmo.
 
Únicos.
Como cada um.
Sem medo de ser quem se é.
Sem receio de existir de forma singular.
 
Porque era ele, porque era eu.
 
E, num profundo saber pertencer,
numa entrega genuína,
o prazer se reconheceu.
 
E pulsa.
Será que me recusa?
Nunca.
 
Nunca existiu toque assim.
Visceral. Carnal. Espiritual.
Fatal.
 
Me acusa?
Nunca me julgou.
 
Sou entrega nesse existir.
Me entrego à alma.
Recebo a calma.
Me faço vil.
Sou posta à prova.
 
Pouco importa.
 
Lambuza.
Me usa.
Me espreita.
Respeita.
 
Sou traço fácil nesse emaranhado.
 
Como diria um outro poeta…
 
Com você é tudo muito fácil!
 
E que entenda quem um dia
puder se deliciar de algo assim...
 
Porque era ele, porque era eu.
Só porque era ele, só porque era eu.
O encanto, enfim, aconteceu.
 
Fernanda Colcerniani
Janeiro 2024


segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O negro na sociedade brasileira

 O texto “O negro na sociedade brasileira”, de João Baptista Borges Pereira, tem como tema central a inserção do negro na sociedade brasileira. A construção do nosso país se deu por meio da diversidade cultural e racial. No momento em que o Brasil apresentava, para os políticos da época, um perigoso equilíbrio entre as raças, estipulou-se a imigração de povos europeus com o objetivo de favorecer o branqueamento da população. Baseado nas teorias racialistas do século XIX, propostas pelo francês Conde de Gobineau, intelectuais brasileiros como Nina Rodrigues e Sílvio Romero incorporaram a mesma ideia: o mito da constituição de uma só raça. Desde então, o negro foi relegado à margem da sociedade.

Como bem relata o autor, o negro enfrenta um duplo preconceito: o da raça, considerada inferior, e o da vagabundagem. Esse último estigma foi reforçado pela ideia de que a mulher negra, ao conquistar espaço para trabalhar em casas de brancos ricos, passou a ser a principal provedora do lar, enquanto o homem negro foi associado à preguiça e à inatividade.

Dentre tantas questões, a política social do país e a própria sociedade sempre colocaram o negro à margem, negando-lhe ou não oferecendo os direitos comuns a todo ser humano. A ideologia da democratização racial, construída em bases falaciosas, permanece nos dias atuais. As condições sociais, econômicas e políticas durante o período de transição de classes apenas serviram para manter o distanciamento entre negros e brancos. Assim, qualquer análise da situação do negro hoje deve considerar fatores histórico-sociais que preservaram as estruturas do regime escravocrata.

O aspecto mais cruel dessa história é que o branco não abriu luta direta contra o negro, mas fez pior: omitiu-se. Essa omissão resultou em uma integração lenta e desigual do negro à sociedade, que até hoje busca seu espaço. Essa lentidão no processo de inclusão restringiu o acesso dos negros a direitos e garantias sociais. A imposição de uma ideologia que perpetua a ideia de ausência de preconceito no Brasil — um país que se considera democraticamente justo — resulta em um preconceito velado, confortável para a sociedade dominante, que continua estigmatizando o negro e impondo-lhe a responsabilidade de se reintegrar por conta própria. “Esse ocultamento da realidade chama-se ideologia. Por seu intermédio, os dominantes legitimam as condições sociais de exploração e dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas” (CHAUÍ, 2008). Assim, fatores histórico-sociais que deveriam ter sido reparados no passado continuam presentes e influentes até hoje.

A ideologia do branqueamento causou um dos maiores prejuízos à nossa sociedade: o negro não se identifica com aquilo que a sociedade considera belo. A sociedade, por sua vez, não reconhece a beleza negra, uma vez que padronizou um ideal de beleza branco, alheio à realidade de um país miscigenado. Características físicas e comportamentais que remetem à ancestralidade africana foram e continuam sendo desvalorizadas, consideradas ruins ou feias. Essa desvalorização não se restringe ao século XIX. Ainda hoje, percebemos sutilmente os impactos da ideologia do branqueamento em várias dimensões da vida social brasileira.

Fernanda Colcerniani

Justiça Social: O Mito da Meritocracia e a Realidade dos Grandes Empresários

 A meritocracia é frequentemente defendida como um ideal que premia o esforço e a competência individual. Contudo, essa narrativa desmorona quando analisamos a fundo as estruturas que sustentam a desigualdade social. Os grandes empresários, frequentemente os maiores entusiastas desse discurso, raramente são exemplos de ascensão pelo mérito puro e simples.

Por trás da riqueza de muitos desses empresários está um cenário de privilégios históricos: heranças familiares, redes de contatos influentes e acesso a educação de qualidade. Enquanto isso, milhões de trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, salários baixos e condições precárias, sem nunca ter a oportunidade de alcançar o "sucesso" prometido pela meritocracia.

Essa lógica ignora o abismo estrutural que separa ricos e pobres. A concentração de renda e a exploração da força de trabalho perpetuam a desigualdade. A narrativa meritocrática, longe de ser uma ferramenta de motivação, torna-se uma forma de culpar os menos favorecidos pela própria pobreza, enquanto isenta os grandes empresários de responsabilidade social.

A verdadeira justiça social só será possível quando reconhecermos que o ponto de partida não é igual para todos. Investir em educação pública de qualidade, garantir direitos trabalhistas e tributar grandes fortunas são passos fundamentais para construir uma sociedade mais justa. Não se trata de demonizar quem tem sucesso, mas de questionar o sistema que transforma privilégios em mérito, enquanto deixa a maioria presa em um ciclo de exclusão.

Promover justiça social é mais do que um discurso bonito; é um compromisso real com a igualdade de oportunidades e a dignidade humana. Quebrar o mito da meritocracia é o primeiro passo para uma transformação estrutural que beneficie a todos, não apenas a elite econômica.

O caminho é nunca passar pano para quem fecha os olhos para as discrepâncias sociais. Não há nenhum problema em ser rico ou ter riqueza. O problema é fechar os olhos para a política que quer olhar para a pobreza. Não. Não basta acordar mais cedo! Apenas uma educação de qualidade é capaz de nos salvar. Que possamos lutar pelo fim das escolas particulares! Que tenhamos escolas públicas e de qualidade para todos os cidadãos deste país!


Fernanda Colcerniani

terça-feira, 19 de novembro de 2024

A arte de se comunicar: falar, ouvir e respeitar

 José Saramago, aclamado escritor português, certa vez escreveu que aprendeu a não tentar convencer ninguém a nada, pois, além de uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. Nunca me esqueci dessas palavras que me levaram a ter uma reflexão profunda do meu papel em relação ao outro. Afinal, quem eu era no mundo?

A reflexão é tão complexa que não se perfaz. Vez ou outra me vejo no papel do colonizador: elevando a voz, achando-me dona de todas as verdades, querendo valer-me apenas das minhas vivências para fazer calar o meu semelhante. Que insensatez! Tirar do outro o direito de ser e do livre direito do pensar individual, é uma mutilação. Sendo assim, logo recobro a sabedoria de Saramago e recolho a minha ínfima insignificância. Muitas vezes, a sabedoria não está em dizer, mas em calar-se. 

A alteridade, do latim alteritas, é um conceito filosófico que conjectura que todo ser social interage no mundo e, mesmo assim, é independente do outro. Portanto, é algo similar a ser empático e tolerante. Entender que, o outro, suas vivências, suas experiências, sua educação, onde e quando nasceu, em que contexto foi forjado, são aspectos relevantes para olharmos para o outro com um ser diferente de nós e uno em si mesmo. 

Muitas vezes tenho vontade de espernear, gritar e dizer: “Olha, não é possível que você não consiga ver as coisas por esse aspecto aqui!” Inútil! Muitos não conseguem mesmo… E, ainda que consigam, não querem. A necessidade da razão - mantenedora do ego - impede que as pessoas escutem o ponto de vista de outro, vista a roupa do outro e tente, ainda que por um momento, se colocar naquele mesmo lugar. 

Tudo bem, é uma utopia. Confesso. Se colocar no lugar do outro é uma tarefa para poucos. Somente aqueles que conseguem desprender seu ser do corpo físico, esquecer, por um instante, as suas vivências, se esvaziar de si e de suas certezas é que consegue, nesse descuido, nesse lapso de tempo, vestir a pele do outro. Afinal, sair de si e de nossas certezas não é tarefa fácil… É preciso muito treino e muita sabedoria para abandonar-se e ter coragem de olhar o outro assim como ele é, sem julgamentos, apenas ouvindo. 

Eis aí outra dificuldade que temos: ouvir... Pode parecer estranho ou paradoxal, no entanto, ouvir o outro passa pelo processo de esvaziar-se, e, assim, ficamos totalmente vulneráveis. E, sejamos honestos… Ninguém gosta de estar vulnerável, não é mesmo? Mas é exatamente assim que ficamos ao doar os nossos ouvidos para alguém dizer. Vulneráveis. Estamos sujeitos ao encanto, ao desencanto, ao amor, ao ódio, à compaixão, ao asco, ao bem querer e, no final, o outro sabe, ao menos em parte, quem somos. Pela forma que ouvimos, pela maneira que julgamos (ou não), pela empatia, pela simpatia, pelo desgosto, pelo horror expresso. Ali deixamos com que seja visto o lado bom, o lado mal. O lado egoísta, o lado emotivo, o perverso, o maduro ou o infantil. Não há santos. Somos todos humanos em busca de legitimidade. 

Quando quero conversar ou simplesmente expor o que penso, nem sempre procuro seguidores do meu pensamento construído em torno de minhas vivências e observações empíricas da vida, contudo, certamente espero respeito, mansidão, que pouse sobre mim um olhar curioso: “Conte-me mais como você chegou a essa conclusão?”

Não. Eu não detenho a verdade universal dos fatos. Nem eu e nem ninguém, haja vista. O mundo é grande demais e nele cabem muitas opiniões e pontos de vista a respeito das coisas existentes. A isso damos o nome de democracia. Ao longo dos meus 40 anos, percebi que não existe ninguém tão ignorante que não tenha nada a me ensinar. Veja bem… Não trato aqui de valores pré estabelecidos. Valores éticos e morais são, de fato, inegociáveis. Tenho valores alicerçados na lealdade, no respeito, na honestidade, na verdade (dos fatos pessoais das relações) e, sobretudo, na responsabilidade com o outro e comigo mesma. 

Mas, sou inteligente o suficiente para me colocar disponível para aprender. Saio todos os dias de casa disposta a aprender. E como podem me ensinar? Como um professor ensina? Bom, todo bom professor parte do pressuposto que o aluno não é uma tábula rasa. Logo, todos carregam com si pensamentos lógicos e “verdades” construídas do ponto de vista do mundo em que está inserido. Seu mundo é pequeno ou grande? Não importa! Nenhum saber pode ser desprezado! 

Saber é ampliado! Eu sei, você sabe, juntamos nossos saberes e assim, sabemos mais. Aprende mais quem escuta mais. Não vale de nada saber e não compreender. Saber e não ouvir. Saber e não distribuir seu conhecimento. Conhecimento guardado para si é conhecimento morto. Penso em quantos saberes já se perderam pelo egoísmo do homem em deter o conhecimento, por não saber ensinar ou, muito pior, por não querer! Sempre me remete ao exemplo das receitas culinárias. Obviamente, respeito às senhoras que guardam o modo de preparo de deliciosos quitutes argumentando ser uma receita familiar. No entanto, não entendo tamanho preciosismo. Todos morremos e os saberes se perdem… Quem garante que os descendentes darão tanto valor ao conhecimento guardado? Num descuido, morre o idoso e, com ele, uma biblioteca. 

Diante a tantas divagações, um ponto aqui é este: saber falar, saber ouvir, ensinar e respeitar. Primeiro porque, se não concordo com a posição de alguém e, essa pessoa é importante pra mim, preciso entender onde está o ponto de que acredito ser a falha e, a partir daí, apresentar outro caminho. Como posso exigir que alguém siga o que penso se ela não conhece outros caminhos e não vivenciou outras experiências? Uma coisa é certa. Imposição não forma opinião. É necessário que se construa no outro uma visão lógica de raciocínio que tenha congruência com a vivência dele. É impossível me convencer a amar o roxo se nunca o vi de perto e nunca tive nenhuma peça nesse tom. Entende? O que o roxo fez por mim que me fará gostar dele? Me apresente o roxo, mostre-me que ele me veste melhor que o amarelo e aí poderemos modificar as coisas. Faça com respeito! Não despreze o que o outro sabe e, principalmente, não despreze se ele também não souber. 

Ouvi… Ensinei… e, ainda assim, não fui feliz? Respeite! Não há necessidade de deixar de amar o outro porque ele pensa diferente de você. As pessoas são únicas! E, obviamente, não precisam pensar da mesma maneira. Claro, temos direito de escolher as pessoas com quem nos relacionamos, a isso chamamos de livre arbítrio. Contudo, hoje vejo relações de anos sendo interrompidas em decorrência de divergência de pensamentos. Sendo que, os melhores casais que conheci e os melhores amigos que vi, eram muito diferentes um do outro… O Segredo? Respeito e paciência. Militem menos e amem mais!


Fernanda Colcerniani

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

Soneto do Amor Que Ele Não Vê

Tu vives no refúgio do receio,

Guardado pelas grades da razão,

E eu, que trago o peito em devaneio,

Te vejo só na sombra da ilusão.


Meu amor é real, mas não te alcança,

Pois tua alma se esconde do sentir;

E cada vez que foges da esperança,

Meu sonho sangra, prestes a partir.


Se soubesses que és toda a minha espera,

Que meu viver sem ti é tão vazio,

Talvez deixasses tua angústia austera.


Mas fico aqui, nas margens do estio,

Enquanto clamo, muda, à primavera

Que desate o gelo do teu frio.


Fernanda Colcerniani

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Paralisia

Trajava uma roupa toda preta com acessórios que realçavam a maquiagem carregada. Acenou para um táxi, estava cansada demais para ir embora de outra forma. Ao entrar indicou o caminho e ansiava o momento de chegar em casa, era aquele momento que tudo o que se pretende é água quente e sossego.

Com sua doce simpatia pediu ao taxista para acender um cigarro. Notando a sua angústia ele não negou, ainda tentou render algum assunto, mas claramente dispersa ela negou-se a conversar. O carro em alta velocidade pela avenida acompanhava a velocidade dos seus pensamentos. As luzes dos postes pareciam borrões que iluminavam pouquíssimo o seu rosto escondido pela penumbra do carro.

Lembrou do dia que conheceu o homem de pele macia, olhar doce e risada cativante, do primeiro beijo que dele ganhou. Arrepiou. O olhar que a fez despertar para o amor, para o primeiro amor, apesar de não estar motivada a amar. Quem sabe poderia ser diferente? Abraçou-lhe, sentiu frio bom na barriga. Algum tempo depois amou e há muito não sentia prazer daquela maneira. Naquele momento sentiu a sua alma ser levada para um lugar que só sabe quem já fez amor alguma vez na vida.

Agora se lembrava de alguns minutos atrás. O mesmo olhar que lhe convidou a amar, dizia que agora já não podia mais ser. Contorceu-se de dor. Engoliu seco o choro, levantou-se calmamente, sorriu - apesar da desgraça - e com os olhos úmidos não disse uma só palavra. Retirou da mão direita o anel dourado e delicadamente o pôs sobre a mesa. Retirou-se. Não sobraram palavras, não havia o que ser dito, era assim que tinha que ser.


Nem perceberá quando o carro parou e enfim escutou: “chegamos”. Retirou de sua bolsa de mão a quantia exata, pagou, despediu-se, agradeceu e saiu do carro buscando alguma resposta que lhe confortasse o coração. Sua cabeça estava estourando de dor e ao entrar pela porta da sala, desmontou-se no sofá. Retirou as botas pesadas e sentiu o chão frio regular os seus pés quentes. Olhou para o teto e uma lágrima desceu para limpar a sua maquiagem e sujar as suas maçãs rosadas. Ficou ali um tempo pequeno, logo se levantou, tirou toda a sua roupa. Abriu o chuveiro e quis a temperatura mais quente, foi aos poucos colocando cada parte do seu corpo em baixo da água quentíssima. Em pouco tempo o banheiro esfumaçou. Acariciava lentamente o seu corpo com o sabonete, sentia a água do chuveiro se misturar com a água que rolava dos seus olhos. Enrolou-se na toalha, sentou na beirada da cama e não conseguia parar de pensar. Daquela maneira adormeceu, lembrando que já havia morrido e matado muitas vezes por amor. 

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Oração

Te devoto minha oração
Clamo-te o meu perdão
Redima-me dessa ausência.
Peço-te que compreenda o meu pavor
An’ti a sua face pálida
E branca
An’ti o seu mistério
E seu enigma
Perdoe-me por me encontrar
Na escuridão
Diante da sua clareza.
Ensina-me a lidar
Com sua receptividade,
De corpo morto
E alma viva.
Dei-me lucidez
E astúcia
Eu te clamo,
Eu te clamo,

Amém. 


Fernanda Colcerniani

terça-feira, 18 de junho de 2013

O gigante acordou, mas ainda tem gente dormindo.

Estou percebendo algumas pessoas com medo das manifestações. Medo que os protestos afastem os turistas. Medo que as pessoas percam o lucro que poderiam ter com a copa.

Gente, por favor, não sejamos mentes pequenas.

Espero que as manifestações afastem as pessoas daqui, todas elas... Que ninguém mais venha ao Brasil. Mas que essa luta faça que nós, brasileiros, possamos conquistar um país digno para nós primeiramente e só depois, apenas depois, para os outros. Não adianta fazermos cara de paisagem pra turista "metido a besta" que vem aqui no nosso país para ver mulher pelada, curti futebol e carnaval. Somos conhecidos como o país do "oba oba", da praia sem compromisso no final de semana, do churrasco na laje, da mulher de bunda grande e temperamento sexual elevado.

Eu quero mais é que nenhum estrangeiro pise nessas terras. Não até o governo pensar primeiro na população e depois, só depois mesmo no turismo. Até que a saúde, a educação e a segurança estejam dignas para nós, não podemos mesmo receber "visitas". Seria como receber visita em sua casa num momento em que você não tem dinheiro, nem espaço e nem condições para tal.

Poxa, somos nós que sustentamos essa porra (me desculpa a expressão). Somos nós que pagamos cada centavo, cada 0,20 centavos a mais. A nossa luta poderia ter sido antes sim... Poderia ter sido no final da década de 90, poderia ter sido no início do sec. XXI. Poderia ter sido lá com os índios... Mas não foi. Contudo, está sendo agora. Então, que seja agora. Que o país inteiro se una e diga NÃO.


Nós Não queremos ser o país da chacota. Não! Não queremos ser o povo que recebe bem os gringos para ainda assim eles saírem daqui falando mal desse país e desse povo calejado e sofrido. Basta! Basta agora! Por mim mandava essa copa para outro país. E deixava o pau comer aqui....

terça-feira, 28 de maio de 2013

Achada


Não... Eu não espero que tudo dê certo (sempre), um pouco até pelo contrário, gosto de me agarrar a poucas possibilidades. Revirando alguns papeis encontrei aquela carta que eu ia te enviar e não enviei. Nem me lembro porque, nem me lembro se tinha intenção de enviar. Às vezes escrevo assim, só pra ver como ia ficar. De qualquer forma a carta já bem marcada pelas dobras, falava de coisas que já nem me lembrava, e até acho bom, sinal que o tempo é mesmo tudo aquilo que falam. Aquela amizade que era tão bonita e que depois se tornou isso que é hoje, não merecia mesmo aquela carta, não merecia as letras garrafais que dizia: “amizade eterna” e “te amo de verdade”. A vida passa e o cheiro do passado arde às narinas, dia sim, dia não. O bom da vida é esse erro constante em que nos metemos, ou o acerto constante que não promove nada. Eu realmente não espero, ou espero por tanto tempo, que já nem considero que seja uma real espera.

A carta que eu li, não representava de fato o passado, eu contive as palavras para não parecer dada ao sentimentalismo. Mas agora ela já não faz sentido, porque nem aquelas palavras contidas se aproximam da minha falta de sentimento atual. Hoje já não sinto nada e nem me faz falta. Depois de recordar bem e a lembrança retornar viva, pensei e tive certeza que nada daquilo que vivi era vida que devia ser vivida. Não era vida. A gente sente falta por querer sentir falta, mas se for analisar a realidade, não tem falta nenhuma. Pensando assim fica mais fácil viver. Tenho tentado descomplicar a vida, mas quando paro de rever os erros do passado, começo a temer pelos erros do futuro e nem seu bem se vivo ou se espero viver essa vida que é minha, só minha e que não há ninguém que se dê ao trabalho de entender. Quanto à carta eu rasguei e rasgarei também esses escritos que de nada servem. Nada que escrevo serve. Não serve para você, não serve para mim, até mesmo para escrever eu minto e minto tanto que não há verdade nenhuma em nada que se lê.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

A cadeira de balanço


Nunca vou me esquecer daquela senhora em sua cadeira de balanço. Todos os dias eu parava em frente a sua casa para esperar o ônibus e lá estava ela, senhora mesmo, com seus quase noventa anos (eu sabia pela sua mão bem enrugada), sempre na sua cadeira de balanço que de tanto balançar já rangia no ritmo do movimento lento.

Eu nunca soube o nome dela, mas me era tão familiar como um parente distante.  Na varanda da sua casa velha observava o movimento das ruas, seus olhos não deixavam escapar nenhum detalhe, ela quase não piscava e eu nunca a vi cochilar. Parecia sozinha, olhava as coisas do mundo de uma forma compreensiva, eu admirava a sua provável sabedoria.

Usava um vestido estampado, tinha cabelos brancos presos por um coque e usava óculos para reparar a vista cansada. Eu sei que ela me via também, eu sorria para ela, mas ela se fazia sempre indiferente e seguia a olhar o seu mundo, os casais da praça em frente, os jardins, os pombos comendo no chão, os elegantes homens de terno, as menininhas correndo, as mães vigiando.

Perguntava-me sempre o que passava pela lembrança daquela senhora em sua ritmada cadeira de balanço. Será que um antigo amor ainda lhe doía a alma? Será que tinha filhos e eles lhe eram devotos? Será que ela sabia como era caótico o mundo? Logo ali na sua porta? O mundo todo, todo ao alcance dos seus olhos.

E ela ainda cantarolava uns versos que eu nunca ouvi em outro lugar, mas que decorei: “Que tristeza em seu olhar, que viver em seu penar, não chore não, pode esperar, eu vou pra ai, eu vou voltar...” Era apenas isso que eu conseguia ouvir, e a cadeira de balanço rangia no ritmo da música lenta e da voz rouca que cantava.

Eu a via todos os dias na hora de ir para o trabalho, era cedo e ela já estava sentada em sua cadeira de balanço, e olhava e cantava. Eu amava tanto aquela senhora, nem eu mesma sabia por que, nem seu nome eu sabia, nem sua família eu conhecia e nem nada de sua vida.

Eu nunca me atrasava para ir ao trabalho, tinha medo de chegar depois e não encontrá-la. Eu nunca a vi de outra forma, nem a cadeira mudava de lugar, parecia ser um ritual seguido por ela há anos.  Aquele olhar distante e sozinho, parecia tão perdida e ao mesmo tempo tão centrada.
Aquele dia, então, amanheceu cinza, mas lá estava ela, balançando e cantando. Quando me viu (e eu sei que ela me via), ela disse o mais alto que pode: “É... Hoje vai chover, vai chover...” De súbito perguntei se falava comigo, mesmo sabendo que era a única naquele ponto de ônibus, mas ela continuou cantando e nada me respondeu. “Que tristeza em seu olhar, que viver em seu penar, não chore não, pode esperar, eu vou pra ai, eu vou voltar...”
Entrei no ônibus e ainda a caminho, o céu desabou. Uma terrível tempestade, forte e grossa. Choveu, e o dia virou noite, o dia inteiro. 

Fiquei o final de semana e dois dias sem trabalhar devido ao resfriado adquirido com a tempestade, que também se encarregou de destruir a cidade. Na quarta feira quando sai para trabalhar, fui decidida em conversar com aquela senhora de mãos envelhecidas e cadeira de balanço ritmada, mesmo que ela não se importasse. No lugar da senhora havia um vazio, a cadeira agora balançava sozinha, na varanda folhas secas e na porta escrito numa placa: “vende-se”. Permaneci ali por algum tempo, o coração esfriou e as mãos suaram, e fiquei olhando o seu ponto de vista e cantarolando aqueles versos que eu ouvia todos os dias. O cheiro de chá ainda permanecia e agora apenas e somente a lembrança. 

Este conto/crônica foi escrito em 2004... Há quase 10 anos... Como mudei minha maneira de escrever... rs