segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025
segunda-feira, 27 de janeiro de 2025
O negro na sociedade brasileira
O texto “O negro na sociedade brasileira”, de João Baptista Borges Pereira, tem como tema central a inserção do negro na sociedade brasileira. A construção do nosso país se deu por meio da diversidade cultural e racial. No momento em que o Brasil apresentava, para os políticos da época, um perigoso equilíbrio entre as raças, estipulou-se a imigração de povos europeus com o objetivo de favorecer o branqueamento da população. Baseado nas teorias racialistas do século XIX, propostas pelo francês Conde de Gobineau, intelectuais brasileiros como Nina Rodrigues e Sílvio Romero incorporaram a mesma ideia: o mito da constituição de uma só raça. Desde então, o negro foi relegado à margem da sociedade.
Como bem relata o autor, o negro enfrenta um duplo preconceito: o da raça, considerada inferior, e o da vagabundagem. Esse último estigma foi reforçado pela ideia de que a mulher negra, ao conquistar espaço para trabalhar em casas de brancos ricos, passou a ser a principal provedora do lar, enquanto o homem negro foi associado à preguiça e à inatividade.
Dentre tantas questões, a política social do país e a própria sociedade sempre colocaram o negro à margem, negando-lhe ou não oferecendo os direitos comuns a todo ser humano. A ideologia da democratização racial, construída em bases falaciosas, permanece nos dias atuais. As condições sociais, econômicas e políticas durante o período de transição de classes apenas serviram para manter o distanciamento entre negros e brancos. Assim, qualquer análise da situação do negro hoje deve considerar fatores histórico-sociais que preservaram as estruturas do regime escravocrata.
O aspecto mais cruel dessa história é que o branco não abriu luta direta contra o negro, mas fez pior: omitiu-se. Essa omissão resultou em uma integração lenta e desigual do negro à sociedade, que até hoje busca seu espaço. Essa lentidão no processo de inclusão restringiu o acesso dos negros a direitos e garantias sociais. A imposição de uma ideologia que perpetua a ideia de ausência de preconceito no Brasil — um país que se considera democraticamente justo — resulta em um preconceito velado, confortável para a sociedade dominante, que continua estigmatizando o negro e impondo-lhe a responsabilidade de se reintegrar por conta própria. “Esse ocultamento da realidade chama-se ideologia. Por seu intermédio, os dominantes legitimam as condições sociais de exploração e dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas” (CHAUÍ, 2008). Assim, fatores histórico-sociais que deveriam ter sido reparados no passado continuam presentes e influentes até hoje.
A ideologia do branqueamento causou um dos maiores prejuízos à nossa sociedade: o negro não se identifica com aquilo que a sociedade considera belo. A sociedade, por sua vez, não reconhece a beleza negra, uma vez que padronizou um ideal de beleza branco, alheio à realidade de um país miscigenado. Características físicas e comportamentais que remetem à ancestralidade africana foram e continuam sendo desvalorizadas, consideradas ruins ou feias. Essa desvalorização não se restringe ao século XIX. Ainda hoje, percebemos sutilmente os impactos da ideologia do branqueamento em várias dimensões da vida social brasileira.
Fernanda Colcerniani
Justiça Social: O Mito da Meritocracia e a Realidade dos Grandes Empresários
A meritocracia é frequentemente defendida como um ideal que premia o esforço e a competência individual. Contudo, essa narrativa desmorona quando analisamos a fundo as estruturas que sustentam a desigualdade social. Os grandes empresários, frequentemente os maiores entusiastas desse discurso, raramente são exemplos de ascensão pelo mérito puro e simples.
Por trás da riqueza de muitos desses empresários está um cenário de privilégios históricos: heranças familiares, redes de contatos influentes e acesso a educação de qualidade. Enquanto isso, milhões de trabalhadores enfrentam jornadas exaustivas, salários baixos e condições precárias, sem nunca ter a oportunidade de alcançar o "sucesso" prometido pela meritocracia.
Essa lógica ignora o abismo estrutural que separa ricos e pobres. A concentração de renda e a exploração da força de trabalho perpetuam a desigualdade. A narrativa meritocrática, longe de ser uma ferramenta de motivação, torna-se uma forma de culpar os menos favorecidos pela própria pobreza, enquanto isenta os grandes empresários de responsabilidade social.
A verdadeira justiça social só será possível quando reconhecermos que o ponto de partida não é igual para todos. Investir em educação pública de qualidade, garantir direitos trabalhistas e tributar grandes fortunas são passos fundamentais para construir uma sociedade mais justa. Não se trata de demonizar quem tem sucesso, mas de questionar o sistema que transforma privilégios em mérito, enquanto deixa a maioria presa em um ciclo de exclusão.
Promover justiça social é mais do que um discurso bonito; é um compromisso real com a igualdade de oportunidades e a dignidade humana. Quebrar o mito da meritocracia é o primeiro passo para uma transformação estrutural que beneficie a todos, não apenas a elite econômica.
O caminho é nunca passar pano para quem fecha os olhos para as discrepâncias sociais. Não há nenhum problema em ser rico ou ter riqueza. O problema é fechar os olhos para a política que quer olhar para a pobreza. Não. Não basta acordar mais cedo! Apenas uma educação de qualidade é capaz de nos salvar. Que possamos lutar pelo fim das escolas particulares! Que tenhamos escolas públicas e de qualidade para todos os cidadãos deste país!
Fernanda Colcerniani
terça-feira, 19 de novembro de 2024
A arte de se comunicar: falar, ouvir e respeitar
José Saramago, aclamado escritor português, certa vez escreveu que aprendeu a não tentar convencer ninguém a nada, pois, além de uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. Nunca me esqueci dessas palavras que me levaram a ter uma reflexão profunda do meu papel em relação ao outro. Afinal, quem eu era no mundo?
A reflexão é tão complexa que não se perfaz. Vez ou outra me vejo no papel do colonizador: elevando a voz, achando-me dona de todas as verdades, querendo valer-me apenas das minhas vivências para fazer calar o meu semelhante. Que insensatez! Tirar do outro o direito de ser e do livre direito do pensar individual, é uma mutilação. Sendo assim, logo recobro a sabedoria de Saramago e recolho a minha ínfima insignificância. Muitas vezes, a sabedoria não está em dizer, mas em calar-se.
A alteridade, do latim alteritas, é um conceito filosófico que conjectura que todo ser social interage no mundo e, mesmo assim, é independente do outro. Portanto, é algo similar a ser empático e tolerante. Entender que, o outro, suas vivências, suas experiências, sua educação, onde e quando nasceu, em que contexto foi forjado, são aspectos relevantes para olharmos para o outro com um ser diferente de nós e uno em si mesmo.
Muitas vezes tenho vontade de espernear, gritar e dizer: “Olha, não é possível que você não consiga ver as coisas por esse aspecto aqui!” Inútil! Muitos não conseguem mesmo… E, ainda que consigam, não querem. A necessidade da razão - mantenedora do ego - impede que as pessoas escutem o ponto de vista de outro, vista a roupa do outro e tente, ainda que por um momento, se colocar naquele mesmo lugar.
Tudo bem, é uma utopia. Confesso. Se colocar no lugar do outro é uma tarefa para poucos. Somente aqueles que conseguem desprender seu ser do corpo físico, esquecer, por um instante, as suas vivências, se esvaziar de si e de suas certezas é que consegue, nesse descuido, nesse lapso de tempo, vestir a pele do outro. Afinal, sair de si e de nossas certezas não é tarefa fácil… É preciso muito treino e muita sabedoria para abandonar-se e ter coragem de olhar o outro assim como ele é, sem julgamentos, apenas ouvindo.
Eis aí outra dificuldade que temos: ouvir... Pode parecer estranho ou paradoxal, no entanto, ouvir o outro passa pelo processo de esvaziar-se, e, assim, ficamos totalmente vulneráveis. E, sejamos honestos… Ninguém gosta de estar vulnerável, não é mesmo? Mas é exatamente assim que ficamos ao doar os nossos ouvidos para alguém dizer. Vulneráveis. Estamos sujeitos ao encanto, ao desencanto, ao amor, ao ódio, à compaixão, ao asco, ao bem querer e, no final, o outro sabe, ao menos em parte, quem somos. Pela forma que ouvimos, pela maneira que julgamos (ou não), pela empatia, pela simpatia, pelo desgosto, pelo horror expresso. Ali deixamos com que seja visto o lado bom, o lado mal. O lado egoísta, o lado emotivo, o perverso, o maduro ou o infantil. Não há santos. Somos todos humanos em busca de legitimidade.
Quando quero conversar ou simplesmente expor o que penso, nem sempre procuro seguidores do meu pensamento construído em torno de minhas vivências e observações empíricas da vida, contudo, certamente espero respeito, mansidão, que pouse sobre mim um olhar curioso: “Conte-me mais como você chegou a essa conclusão?”
Não. Eu não detenho a verdade universal dos fatos. Nem eu e nem ninguém, haja vista. O mundo é grande demais e nele cabem muitas opiniões e pontos de vista a respeito das coisas existentes. A isso damos o nome de democracia. Ao longo dos meus 40 anos, percebi que não existe ninguém tão ignorante que não tenha nada a me ensinar. Veja bem… Não trato aqui de valores pré estabelecidos. Valores éticos e morais são, de fato, inegociáveis. Tenho valores alicerçados na lealdade, no respeito, na honestidade, na verdade (dos fatos pessoais das relações) e, sobretudo, na responsabilidade com o outro e comigo mesma.
Mas, sou inteligente o suficiente para me colocar disponível para aprender. Saio todos os dias de casa disposta a aprender. E como podem me ensinar? Como um professor ensina? Bom, todo bom professor parte do pressuposto que o aluno não é uma tábula rasa. Logo, todos carregam com si pensamentos lógicos e “verdades” construídas do ponto de vista do mundo em que está inserido. Seu mundo é pequeno ou grande? Não importa! Nenhum saber pode ser desprezado!
Saber é ampliado! Eu sei, você sabe, juntamos nossos saberes e assim, sabemos mais. Aprende mais quem escuta mais. Não vale de nada saber e não compreender. Saber e não ouvir. Saber e não distribuir seu conhecimento. Conhecimento guardado para si é conhecimento morto. Penso em quantos saberes já se perderam pelo egoísmo do homem em deter o conhecimento, por não saber ensinar ou, muito pior, por não querer! Sempre me remete ao exemplo das receitas culinárias. Obviamente, respeito às senhoras que guardam o modo de preparo de deliciosos quitutes argumentando ser uma receita familiar. No entanto, não entendo tamanho preciosismo. Todos morremos e os saberes se perdem… Quem garante que os descendentes darão tanto valor ao conhecimento guardado? Num descuido, morre o idoso e, com ele, uma biblioteca.
Diante a tantas divagações, um ponto aqui é este: saber falar, saber ouvir, ensinar e respeitar. Primeiro porque, se não concordo com a posição de alguém e, essa pessoa é importante pra mim, preciso entender onde está o ponto de que acredito ser a falha e, a partir daí, apresentar outro caminho. Como posso exigir que alguém siga o que penso se ela não conhece outros caminhos e não vivenciou outras experiências? Uma coisa é certa. Imposição não forma opinião. É necessário que se construa no outro uma visão lógica de raciocínio que tenha congruência com a vivência dele. É impossível me convencer a amar o roxo se nunca o vi de perto e nunca tive nenhuma peça nesse tom. Entende? O que o roxo fez por mim que me fará gostar dele? Me apresente o roxo, mostre-me que ele me veste melhor que o amarelo e aí poderemos modificar as coisas. Faça com respeito! Não despreze o que o outro sabe e, principalmente, não despreze se ele também não souber.
Ouvi… Ensinei… e, ainda assim, não fui feliz? Respeite! Não há necessidade de deixar de amar o outro porque ele pensa diferente de você. As pessoas são únicas! E, obviamente, não precisam pensar da mesma maneira. Claro, temos direito de escolher as pessoas com quem nos relacionamos, a isso chamamos de livre arbítrio. Contudo, hoje vejo relações de anos sendo interrompidas em decorrência de divergência de pensamentos. Sendo que, os melhores casais que conheci e os melhores amigos que vi, eram muito diferentes um do outro… O Segredo? Respeito e paciência. Militem menos e amem mais!
segunda-feira, 18 de novembro de 2024
Soneto do Amor Que Ele Não Vê
Tu vives no refúgio do receio,
Guardado pelas grades da razão,
E eu, que trago o peito em devaneio,
Te vejo só na sombra da ilusão.
Meu amor é real, mas não te alcança,
Pois tua alma se esconde do sentir;
E cada vez que foges da esperança,
Meu sonho sangra, prestes a partir.
Se soubesses que és toda a minha espera,
Que meu viver sem ti é tão vazio,
Talvez deixasses tua angústia austera.
Mas fico aqui, nas margens do estio,
Enquanto clamo, muda, à primavera
Que desate o gelo do teu frio.
Fernanda Colcerniani
quinta-feira, 15 de agosto de 2013
Paralisia
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Oração
terça-feira, 18 de junho de 2013
O gigante acordou, mas ainda tem gente dormindo.
terça-feira, 28 de maio de 2013
Achada
sexta-feira, 10 de maio de 2013
A cadeira de balanço
Este conto/crônica foi escrito em 2004... Há quase 10 anos... Como mudei minha maneira de escrever... rs