segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

O negro na sociedade brasileira

 O texto “O negro na sociedade brasileira”, de João Baptista Borges Pereira, tem como tema central a inserção do negro na sociedade brasileira. A construção do nosso país se deu por meio da diversidade cultural e racial. No momento em que o Brasil apresentava, para os políticos da época, um perigoso equilíbrio entre as raças, estipulou-se a imigração de povos europeus com o objetivo de favorecer o branqueamento da população. Baseado nas teorias racialistas do século XIX, propostas pelo francês Conde de Gobineau, intelectuais brasileiros como Nina Rodrigues e Sílvio Romero incorporaram a mesma ideia: o mito da constituição de uma só raça. Desde então, o negro foi relegado à margem da sociedade.

Como bem relata o autor, o negro enfrenta um duplo preconceito: o da raça, considerada inferior, e o da vagabundagem. Esse último estigma foi reforçado pela ideia de que a mulher negra, ao conquistar espaço para trabalhar em casas de brancos ricos, passou a ser a principal provedora do lar, enquanto o homem negro foi associado à preguiça e à inatividade.

Dentre tantas questões, a política social do país e a própria sociedade sempre colocaram o negro à margem, negando-lhe ou não oferecendo os direitos comuns a todo ser humano. A ideologia da democratização racial, construída em bases falaciosas, permanece nos dias atuais. As condições sociais, econômicas e políticas durante o período de transição de classes apenas serviram para manter o distanciamento entre negros e brancos. Assim, qualquer análise da situação do negro hoje deve considerar fatores histórico-sociais que preservaram as estruturas do regime escravocrata.

O aspecto mais cruel dessa história é que o branco não abriu luta direta contra o negro, mas fez pior: omitiu-se. Essa omissão resultou em uma integração lenta e desigual do negro à sociedade, que até hoje busca seu espaço. Essa lentidão no processo de inclusão restringiu o acesso dos negros a direitos e garantias sociais. A imposição de uma ideologia que perpetua a ideia de ausência de preconceito no Brasil — um país que se considera democraticamente justo — resulta em um preconceito velado, confortável para a sociedade dominante, que continua estigmatizando o negro e impondo-lhe a responsabilidade de se reintegrar por conta própria. “Esse ocultamento da realidade chama-se ideologia. Por seu intermédio, os dominantes legitimam as condições sociais de exploração e dominação, fazendo com que pareçam verdadeiras e justas” (CHAUÍ, 2008). Assim, fatores histórico-sociais que deveriam ter sido reparados no passado continuam presentes e influentes até hoje.

A ideologia do branqueamento causou um dos maiores prejuízos à nossa sociedade: o negro não se identifica com aquilo que a sociedade considera belo. A sociedade, por sua vez, não reconhece a beleza negra, uma vez que padronizou um ideal de beleza branco, alheio à realidade de um país miscigenado. Características físicas e comportamentais que remetem à ancestralidade africana foram e continuam sendo desvalorizadas, consideradas ruins ou feias. Essa desvalorização não se restringe ao século XIX. Ainda hoje, percebemos sutilmente os impactos da ideologia do branqueamento em várias dimensões da vida social brasileira.

Fernanda Colcerniani

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"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." CL