José Saramago, aclamado escritor português, certa vez escreveu que aprendeu a não tentar convencer ninguém a nada, pois, além de uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro. Nunca me esqueci dessas palavras que me levaram a ter uma reflexão profunda do meu papel em relação ao outro. Afinal, quem eu era no mundo?
A reflexão é tão complexa que não se perfaz. Vez ou outra me vejo no papel do colonizador: elevando a voz, achando-me dona de todas as verdades, querendo valer-me apenas das minhas vivências para fazer calar o meu semelhante. Que insensatez! Tirar do outro o direito de ser e do livre direito do pensar individual, é uma mutilação. Sendo assim, logo recobro a sabedoria de Saramago e recolho a minha ínfima insignificância. Muitas vezes, a sabedoria não está em dizer, mas em calar-se.
A alteridade, do latim alteritas, é um conceito filosófico que conjectura que todo ser social interage no mundo e, mesmo assim, é independente do outro. Portanto, é algo similar a ser empático e tolerante. Entender que, o outro, suas vivências, suas experiências, sua educação, onde e quando nasceu, em que contexto foi forjado, são aspectos relevantes para olharmos para o outro com um ser diferente de nós e uno em si mesmo.
Muitas vezes tenho vontade de espernear, gritar e dizer: “Olha, não é possível que você não consiga ver as coisas por esse aspecto aqui!” Inútil! Muitos não conseguem mesmo… E, ainda que consigam, não querem. A necessidade da razão - mantenedora do ego - impede que as pessoas escutem o ponto de vista de outro, vista a roupa do outro e tente, ainda que por um momento, se colocar naquele mesmo lugar.
Tudo bem, é uma utopia. Confesso. Se colocar no lugar do outro é uma tarefa para poucos. Somente aqueles que conseguem desprender seu ser do corpo físico, esquecer, por um instante, as suas vivências, se esvaziar de si e de suas certezas é que consegue, nesse descuido, nesse lapso de tempo, vestir a pele do outro. Afinal, sair de si e de nossas certezas não é tarefa fácil… É preciso muito treino e muita sabedoria para abandonar-se e ter coragem de olhar o outro assim como ele é, sem julgamentos, apenas ouvindo.
Eis aí outra dificuldade que temos: ouvir... Pode parecer estranho ou paradoxal, no entanto, ouvir o outro passa pelo processo de esvaziar-se, e, assim, ficamos totalmente vulneráveis. E, sejamos honestos… Ninguém gosta de estar vulnerável, não é mesmo? Mas é exatamente assim que ficamos ao doar os nossos ouvidos para alguém dizer. Vulneráveis. Estamos sujeitos ao encanto, ao desencanto, ao amor, ao ódio, à compaixão, ao asco, ao bem querer e, no final, o outro sabe, ao menos em parte, quem somos. Pela forma que ouvimos, pela maneira que julgamos (ou não), pela empatia, pela simpatia, pelo desgosto, pelo horror expresso. Ali deixamos com que seja visto o lado bom, o lado mal. O lado egoísta, o lado emotivo, o perverso, o maduro ou o infantil. Não há santos. Somos todos humanos em busca de legitimidade.
Quando quero conversar ou simplesmente expor o que penso, nem sempre procuro seguidores do meu pensamento construído em torno de minhas vivências e observações empíricas da vida, contudo, certamente espero respeito, mansidão, que pouse sobre mim um olhar curioso: “Conte-me mais como você chegou a essa conclusão?”
Não. Eu não detenho a verdade universal dos fatos. Nem eu e nem ninguém, haja vista. O mundo é grande demais e nele cabem muitas opiniões e pontos de vista a respeito das coisas existentes. A isso damos o nome de democracia. Ao longo dos meus 40 anos, percebi que não existe ninguém tão ignorante que não tenha nada a me ensinar. Veja bem… Não trato aqui de valores pré estabelecidos. Valores éticos e morais são, de fato, inegociáveis. Tenho valores alicerçados na lealdade, no respeito, na honestidade, na verdade (dos fatos pessoais das relações) e, sobretudo, na responsabilidade com o outro e comigo mesma.
Mas, sou inteligente o suficiente para me colocar disponível para aprender. Saio todos os dias de casa disposta a aprender. E como podem me ensinar? Como um professor ensina? Bom, todo bom professor parte do pressuposto que o aluno não é uma tábula rasa. Logo, todos carregam com si pensamentos lógicos e “verdades” construídas do ponto de vista do mundo em que está inserido. Seu mundo é pequeno ou grande? Não importa! Nenhum saber pode ser desprezado!
Saber é ampliado! Eu sei, você sabe, juntamos nossos saberes e assim, sabemos mais. Aprende mais quem escuta mais. Não vale de nada saber e não compreender. Saber e não ouvir. Saber e não distribuir seu conhecimento. Conhecimento guardado para si é conhecimento morto. Penso em quantos saberes já se perderam pelo egoísmo do homem em deter o conhecimento, por não saber ensinar ou, muito pior, por não querer! Sempre me remete ao exemplo das receitas culinárias. Obviamente, respeito às senhoras que guardam o modo de preparo de deliciosos quitutes argumentando ser uma receita familiar. No entanto, não entendo tamanho preciosismo. Todos morremos e os saberes se perdem… Quem garante que os descendentes darão tanto valor ao conhecimento guardado? Num descuido, morre o idoso e, com ele, uma biblioteca.
Diante a tantas divagações, um ponto aqui é este: saber falar, saber ouvir, ensinar e respeitar. Primeiro porque, se não concordo com a posição de alguém e, essa pessoa é importante pra mim, preciso entender onde está o ponto de que acredito ser a falha e, a partir daí, apresentar outro caminho. Como posso exigir que alguém siga o que penso se ela não conhece outros caminhos e não vivenciou outras experiências? Uma coisa é certa. Imposição não forma opinião. É necessário que se construa no outro uma visão lógica de raciocínio que tenha congruência com a vivência dele. É impossível me convencer a amar o roxo se nunca o vi de perto e nunca tive nenhuma peça nesse tom. Entende? O que o roxo fez por mim que me fará gostar dele? Me apresente o roxo, mostre-me que ele me veste melhor que o amarelo e aí poderemos modificar as coisas. Faça com respeito! Não despreze o que o outro sabe e, principalmente, não despreze se ele também não souber.
Ouvi… Ensinei… e, ainda assim, não fui feliz? Respeite! Não há necessidade de deixar de amar o outro porque ele pensa diferente de você. As pessoas são únicas! E, obviamente, não precisam pensar da mesma maneira. Claro, temos direito de escolher as pessoas com quem nos relacionamos, a isso chamamos de livre arbítrio. Contudo, hoje vejo relações de anos sendo interrompidas em decorrência de divergência de pensamentos. Sendo que, os melhores casais que conheci e os melhores amigos que vi, eram muito diferentes um do outro… O Segredo? Respeito e paciência. Militem menos e amem mais!
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"Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas." CL