segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

Porque era ele, porque era eu

Porque era ele, porque era eu
 
Bastou para Michel de Montaigne,
numa frase que não é qualquer,
explicar as razões de uma amizade:
Porque era ele, porque era eu.
 
Numa profunda epifania,
regada de canções e poesias,
a mágica acontecia.
 
Quantas madrugadas foram precisas
até o completo frenesi?
Muitas? Nenhuma?
Não sei dizer.
 
Porque era ele, porque era eu.
 
E essa frase tão antiga,
que agora quase me esvazia,
me liberta e me domina.
 
Não havia mais nada.
Havia os dois.
Duas almas.
Dois seres.
Dois corpos.
Duas chamas.
 
Havia um único lugar,
um único desejo:
o desejo de ser e de existir em si mesmo.
 
Únicos.
Como cada um.
Sem medo de ser quem se é.
Sem receio de existir de forma singular.
 
Porque era ele, porque era eu.
 
E, num profundo saber pertencer,
numa entrega genuína,
o prazer se reconheceu.
 
E pulsa.
Será que me recusa?
Nunca.
 
Nunca existiu toque assim.
Visceral. Carnal. Espiritual.
Fatal.
 
Me acusa?
Nunca me julgou.
 
Sou entrega nesse existir.
Me entrego à alma.
Recebo a calma.
Me faço vil.
Sou posta à prova.
 
Pouco importa.
 
Lambuza.
Me usa.
Me espreita.
Respeita.
 
Sou traço fácil nesse emaranhado.
 
Como diria um outro poeta…
 
Com você é tudo muito fácil!
 
E que entenda quem um dia
puder se deliciar de algo assim...
 
Porque era ele, porque era eu.
Só porque era ele, só porque era eu.
O encanto, enfim, aconteceu.
 
Fernanda Colcerniani
Janeiro 2024